quinta-feira, 13 de setembro de 2007

download & mp3

altamente
RECOMENDADOS


questões tecnológicas


CASSIANO ELEK MACHADO





Todas as manhãs, o motorista de táxi Manuel da Silva Aguiar, de 56 anos, inicia uma jornada de doze horas de trabalho na direção de um Corsa amarelo ligando seu aparelho Sony MP3. O motorista pernambucano comprou a engenhoca há três meses, numa loja das Casas Bahia perto de sua casa, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Ao todo, pagará doze prestações de 57 reais. Aguiar acha que fez um excelente negócio, pois trocou uma barafunda de CDs no porta-luvas por 900 músicas de Richard Clayderman, Kenny G e congêneres bem ordenadas no aparelhinho. A rádio América AM perdeu um ouvinte.

Gabriel Guerra, de 14 anos, coleciona músicas de bandas como Radio 4, Moving Units, Rockz e Benflos no seu iPod. Ele escuta indie rock no pátio da escola Parque, na Gávea, a algumas centenas de metros do ponto onde Aguiar tem sua base de trabalho. Gabriel e Manuel são mais do que uma rima. São protagonistas de uma mudança profunda, de alcance mundial, na percepção da música.

O trabalho de Luiz Tornaghi é avaliar a materialidade da música, o som. No seu pequeno escritório, num prédio comercial na praia do Flamengo, onde há menos cadeiras do que aparelhos de som, quase não se percebe, no canto de uma estante, uma estatueta dourada, em forma de um gramofone. O objeto veio de Los Angeles, é um Grammy. Tornaghi é engenheiro de som, dono do estúdio Batmastersom. Em 2005, ele ganhou o Grammy de melhor álbum latino-americano, um de Ivan Lins.

Tornaghi aperta a tecla play de um computador e as caixas de som inglesas Bowers & Wilkins soltam um vozeirão. Bateria, naipe de sopros, baixo, teclados e guitarras acompanham o registro barítono de Michael McDonald, cantor de soul. O som preenche todo o estúdio. Pause. O engenheiro aciona um software e coloca a mesma canção no formato MP3. Play outra vez. “Veja”, diz ele, apontando para o ar, como se algo de concreto realmente pudesse ser visto. “É outra coisa. Repare como o timbre do prato está mais pálido, veja como o baixo perde o punch.”

Manuel Aguiar não teria desocupado o seu porta-luvas, Gabriel Guerra não conheceria bandas como a Moving Units e o baixista de McDonald não perderia o punch numa sala no Flamengo não fosse um projeto chamado Eureka EU 147, iniciado na Alemanha, em 1987. Dois anos depois, os pesquisadores germânicos chegaram a um formato que, já então, se chamava MP3. A sigla é uma abreviação de MPEG Layer 3, o terceiro formato de padronização criado pelo Moving Pictures Expert Group, um grupo de trabalho do Instituto Internacional de Padronizações.

MP3 é um formato de codificação de música mais compacto do que seus antecessores, o compact disc (CD) e o long-playing (LP). Quando Luiz Tornaghi transforma a canção “What a Fool Believes” para o formato MP3, ela passa a ocupar um espaço, em média, dez vezes menor, num computador, do que o registro em CD. O processo, que leva poucos segundos, toma como base a psicoacústica, o estudo de como as pessoas percebem os sons. Os seres humanos não conseguem assimilar freqüências abaixo de 20 hertz nem superiores a 20 mil hertz (a freqüência da voz humana, por exemplo, oscila entre 60 e 1 300 hertz). Além disso, a audição humana é incapaz de notar algumas combinações de graves e agudos. Os codificadores de MP3 partem dessas limitações. Para diminuir o tamanho de um arquivo, seus softwares usam fórmulas matemáticas, algoritmos, para eliminar de uma música tudo o que os estudos de psicoacústica garantem que não percebemos. Em teoria, a redução não afetaria a materialidade do som, tal como percebido pelos ouvidos humanos.

Um garoto de 18 anos chamado Shawn Fanning foi o primeiro a perceber o potencial do MP3. Estava tão irritado por não conseguir trocar arquivos em MP3 com seus amigos, que decidiu ele mesmo desenvolver um programa de intercâmbio digital. Assim nasceu, em 1999, o Napster. Como a troca de arquivos era feita sem o devido pagamento de direitos autorais, a associação das gravadoras americanas processou a empresa de Fanning. O processo deu visibilidade ao Napster, e o número dos seus usuários chegou em alguns meses à casa das dezenas de milhões de pessoas. Desde então, pipocaram na internet os sítios de trocas de músicas.

A indústria do disco chiou, cumprindo o velho script da tecnofobia. Há 100 anos, nos Estados Unidos, editores de música processaram fabricantes de pianolas, alegando que ninguém mais compraria as partituras. Nos anos 30, a indústria da música processou as emissoras de rádio. Há 25 anos, gravadoras inglesas lançaram a campanha “Home Taping is Killing Music”, que sustentava que as gravações caseiras de fitas K7 acabariam com os LPs. E quando, em 1983, o presidente da gravadora PolyGram, Jan Timmer, apresentou o compact disc em uma convenção em Miami foi vaiado pela platéia de empresários e executivos da indústria.

A morte do produto apresentado pelo sr. Timmer é hoje consenso entre os profissionais do som. “Quando apareceu o CD já era uma tecnologia obsoleta”, atesta André Midani, que não é um palpiteiro qualquer. Desde que começou a trabalhar no setor de estoques da filial francesa da gravadora Decca, nos anos 50, ele comandou a Odeon, Philips e Warner e ajudou a moldar a carreira de, entre outros, Tom Jobim, Tim Maia e Chico Buarque. Midani diz que teve a primeira visão da morte do CD num laboratório na Holanda, pouco tempo depois do seu lançamento. Foi quando conheceu pesquisadores que tentavam arquivar toda a obra de Beethoven em um chip. Ele acredita que as gravadoras só poderão sobreviver se virarem empresas de marketing. “Como as novas tecnologias acabam fisicamente com estúdios, fábricas, distribuição, estoques e lojas, as gravadoras terão de se concentrar na filtragem e promoção de bandas”, diz.

O engenheiro de som Gabriel Pinheiro prevê a morte definitiva dos disquinhos prateados em cinco anos, e não a lamenta. Pinheiro, que trabalha no selo carioca Biscoito Fino, acredita que uma fatiazinha do mercado trabalhará com formatos de alta resolução, como o DVD Áudio, um disco semelhante ao que é usado hoje para imagens. E “uma parte monstra”, ou 95% das gravadoras de hoje, passará a produzir e comercializar tudo digitalmente. Seria, assim, o fim de toda a linhagem que vai dos cilindros cobertos de cera, de Thomas Edison, aos DVDs, passando por discos de 78 rotações, LPs, fitas de rolo e fitas K7. Com esse fim das mídias físicas lá se vai o “me empresta aquele seu LP” ou o “te comprei um CD”. Com ele, também, acabariam as lojas de discos. O processo está em curso: a cadeia de lojas Tower Records baixou suas portas de vez em dezembro. O triunfo do formato recoloca a questão: o som do MP3, além de menor e mais prático, é o quê, em relação aos seus antecessores – melhor, pior, mais nítido, mais fiel ao original?

Luiz Tornaghi, o dono do estúdio Batmastersom, não gosta do que está ouvindo. É, o prato da bateria é o problema. Falta punch no contrabaixo, também. Pensando bem, o vozeirão de Michael McDonald está opaco. “Vivemos um caso único na história. A tecnologia está evoluindo para a perda da qualidade”, diz ele, botando no mesmo barco do MP3 outros formatos como o AAC (o do iPod) e o Dolby Digital, usado nos aparelhos de DVD. Todos eles fazem compressões chamadas de “lossy”, ou seja, com perda de informação. Tornaghi acredita que na faxina sonora promovida pelos algoritmos a música sofre perdas importantes. “Nos anos 70, qualquer aparelho de som custava muito caro; e hoje qualquer um compra um aparelho de som, mas o som é qualquer coisa”, afirma.

“Quem liga para a qualidade?” Foi essa a manchete de capa, indagativa, da edição especial da mais respeitada publicação para profissionais do som, a americana Mix Magazine. O editor sênior da revista, Blair Jackson, sustenta que, por praticidade, se optou por uma tecnologia inferior. Ele acredita que se a qualidade da produção musical for boa o bastante para que possa ser escutada, está tudo bem.

Fernando Iazzetta, professor do departamento de música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, acha o MP3 bom o bastante. “Se a compactação do som for feita decentemente, só quem pode achar perdas nele é um técnico de estúdio, ouvindo num aparelho de estúdio que custa milhares de dólares e com uma sala isolada acusticamente”, ele diz. Para o professor, as perdas existem e são identificáveis, mas “só em situações críticas”. A mudança mais significativa, sublinha, está no modo de as pessoas escutarem, difundirem, consumirem e até produzirem música. “As mídias analógicas eram mais caras e sofisticadas, o que restringia a produção musical a grupos especializados”, diz. “A passagem para o CD já permitiu que grupos independentes se aproximassem mais da produção. Com as mídias mais recentes o próprio usuário pode criar sozinho. E ele ainda pode divulgar com eficiência, e distribuir tudo pela internet.” As ferramentas disponíveis também se multiplicam. Iazzetta também é compositor e diz que um aparelho de processamento de áudio que poderia custar 5 mil dólares hoje é facilmente substituído por um software que custa um décimo disso. “O estúdio que antes compraria um processador, pode ter agora dez diferentes.”

O engenheiro de som Carlos Lima acredita ter sido o primeiro a trabalhar no Brasil com sistemas digitais. Suas primeiras experiências foram em 1983, com um sistema “caseiro” da Sony e, três anos depois, ele já operava um sistema de gravação digital Digidesign SoundTools em seu Apple II. Mais de duas décadas depois, o sócio do YB Studio, de São Paulo, acha que as tecnologias que ajudou a difundir acabarão com uma forma artística (que é simultaneamente uma mercadoria) que ele vem trabalhando desde o início de sua carreira: o álbum. “A idéia de um álbum, com um começo, um meio e um fim, com uma capa, um conjunto de textos, um conceito e tudo o mais que conhecemos há décadas, vai terminar”, prevê. Ele enxerga aí um paradoxo. No momento em que a tecnologia possibilita que se leve 20 mil músicas no bolso, elas são cada vez mais consumidas uma a uma, inclusive na iTunes Store, a loja de músicas da Apple, onde cada canção é vendida por 99 centavos de dólar. Ao deixar de ser comercializada em conjunto, como nos CDs e LPs, a música passa a ser pensada e produzida individualmente: cada uma com um conceito diferente. O seu sentido, a sua relação com outras músicas, é dada pelo ouvinte, que as seleciona e ordena para audição. Ou, então, deliberadamente o ouvinte não faz a seleção, preferindo o modo “random”.

Um tonel de pinga mineira ao lado de uma mesa de sinuca, logo na entrada do estúdio YB, são sinais de que Carlos Lima não está muito preocupado com a nova ordem musical. Ele acredita que qualquer um pode produzir e distribuir música hoje, mas os estúdios e seus profissionais continuam indispensáveis. “Pode pegar qualquer lista com os 50 MP3 mais baixados”, afirma. “Garanto que são músicas bem produzidas, por profissionais.”

A música de Michael McDonald que toca no estúdio de Luiz Tornaghi é profissional e bem produzida, não há dúvida. Mas o dono do Batmastersom não está feliz com a versão que acaba de fazer dela para MP3. Os pratos são a questão nevrálgica. A bateria é, segundo o engenheiro, o fiel da balança. Ou o infiel da balança. Os timbres pálidos da percussão de McDonald colocam em xeque a idéia ancestral da gravação musical, a da fidelidade. Difundido nos anos 50, nos Estados Unidos, o termo é usado historicamente para comparar a qualidade de uma determinada gravação e a qualidade de uma performance ao vivo. Mais fiel seria o som que melhor reproduzisse a música apresentada num teatro, numa sala de concertos ou num bar. O conceito de fidelidade pressupõe, portanto, que a verdadeira música é a apresentada ao vivo.

“Essa é uma questão de marketing”, analisa Fernando Iazzetta. “A idéia de fidelidade, de uns trinta anos para cá, é totalmente falsa. Fidelidade é dizer que um som é idêntico a outro som. O som do CD é igual ao do concerto, ou do show. O que acontece hoje é que a nossa referência é invertida. Quando você vai a um show, você quer ver lá o som igual ao da gravação. E nesse sentido o som da gravação é melhor do que o original. A questão de ser melhor ou pior é relativa, porque as pessoas ouvem muito mais som de gravação do que de música ao vivo.”

Luiz Tornaghi está de acordo. E exemplifica com a bateria, ela de novo. Quem vai a algum espetáculo ao vivo não pensa muito nisso, mas, em cada parte da bateria (caixa, bumbo, pratos) existe um microfone. Salvo em raras exceções (notadamente em espetáculos eruditos, onde não se usa amplificação), não se escuta o som puro da bateria. A bateria não é fiel nem a ela mesma. Mas quando o engenheiro transforma uma gravação em um formato MP3 a bateria fica ainda mais infiel. Daí que os pratos da bateria de Michael McDonald soem esmaecidos...

É com outra combinação alfa-numérica que Gabriel Pinheiro, da Biscoito Fino, trata da infidelidade do MP3: 3D. A compressão de som tira um pouco da sua tridimensionalidade. “Quando você ouve música em um bom aparelho, tem a impressão de poder ver onde está cada instrumentista: o baixista está mais para a direita, o baterista no fundo, o pianista na frente. A música comprimida coloca todos no mesmo plano.”

Para que não se coloque também tudo no mesmo plano, tanto Tornaghi quanto Pinheiro ressaltam que há diferentes tipos de compactação. Se ela for feita com um codificador de boa qualidade e, mais importante, com uma taxa de transferência elevada, a perda sonora será menor. Aí entra em cena outra sigla, o kbps, ou kylobit por segundo. Quando a música é codificada para MP3, ela passa, na imagem de Gabriel Pinheiro, por um “funil”. Quanto maior o kbps, mais qualidade terá o MP3.

Dentro da sala da Batmastersom, Luiz exemplifica com o som de... Michael McDonald. Primeiro ele põe para tocar a música gorda, ainda não comprimida. Depois, coloca a versão em MP3 feita em 320 kbps. A diferença é pequena. Os ouvidos de Tornaghi percebem alguns timbres menos brilhantes, uma falta de grave aqui e acolá. Quando ele transforma a mesma música com uma taxa de 32 kbps, a perda de qualidade é evidente. O prato fica horrível, o baixo perde o punch. A qualidade dos rádios de internet não fica longe disso, segundo Luiz Tornaghi. O engenheiro diz que pouquíssimos consumidores de MP3 prestam atenção para isso.

Até porque o MP3 virou um produto de massa. Só a rede Carrefour, com 143 lojas, vendeu em dezembro 984% a mais de tocadores de MP3 do que no mesmo mês no ano anterior. Na Rua Santa Ifigênia, principal ponto de comércio de eletrônicos de São Paulo, é possível comprar com 70 reais um tocador de MP3 que copia, com direito ao desenho da maçãzinha da Apple, o visual do iPod. O test-drive de um aparelho desses, comprado em uma loja chamada Cat Game, mostra que Luiz Tornaghi tem razões para franzir o cenho: o som parece vir do fundo de um poço, abafado e distorcido. Os pratos, eles de novo, de fato fazem a diferença.

Outro ponto de concordância dos técnicos diz respeito ao perigo físico do MP3 e dos iPods. A expressão “geração de surdos” é usada por todos eles. Ela designa um fenômeno comum e imperceptível: escuta-se música nos fones de ouvido em alturas prejudiciais ao ouvido.

“É um caso de saúde pública”, diz Ieda Chaves Pacheco Russo, professora de fonoaudiologia da PUC-SP. Segundo ela, quem escuta seu iPod com três quartos do volume máximo, por meia hora, já está danificando a audição de maneira irreversível. No volume máximo, o aparelhinho produziria o mesmo estrago do que a exposição ao ruído de uma britadeira.

A questão está até na Justiça. No início de 2006, o americano John Kiel Patterson entrou com um processo contra a Apple no distrito de San José, Califórnia. O processo não chegou ao fim, mas as chances de Patterson, segundo especialistas, são grandes. Na França, o órgão de proteção ao consumidor obrigou os fabricantes a limitarem o volume dos aparelhos ao máximo de 100 decibéis. “Cada vez que alguém escuta uma música acima dos limites aceitáveis perde um fio de cabelo da audição. Em longo prazo, teremos muitos carecas”, brinca Tornaghi. Ele protege sua cabeleira sonora evitando o uso de aparelhos de MP3. Ieda Russo confessa que tem um iPod, mas que não costuma escutá-lo, não apenas por questões de saúde. Pianista amadora e amante de Tchaikovski e dos noturnos de Chopin, ela critica o egoísmo dos fones de ouvido. “A música tem de ser de todos.”

Contra essa “baixa fidelidade” é que alguns poucos ainda se refugiam nos long-playing. Zuza Homem de Mello é um deles. Musicólogo, jornalista, radialista e produtor, há mais de cinqüenta anos profissional da música, ele passa longe dos tocadores de MP3. Zuza acha o som dos LPs muito melhor do que o de qualquer aparato digital. Dono de uma coleção de 10 mil discos de vinil, ele diz estar “comprovado que a qualidade técnica do vinil, em termos ideais, reproduz a música de maneira mais completa do que o CD. A eliminação do chiado que o digital introduziu foi um grande passo, bem como a eliminação do desgaste físico do disco. Para isso, porém, a tecnologia eliminou algumas sonoridades importantes”.

Nilton José da Rocha está de acordo. Na sua casa não entram CDs. Seu Nilton, como é chamado na sua firma, é o último fabricante de LPs no Brasil. O reduto irredutível do vinil fica em uma ruazinha pacata de Belford Roxo, na Baixada Fluminense. De um lado da rua, está o Boteco do Russo; do outro, por trás de um portão metálico azul desbotado, fica a PolySom. Fundada em abril de 1999, quando o CD já se alastrara, a empresa de seu Nilton foi criada para atender a demanda da igreja pentecostal Deus É Amor. A PolySom chegou a imprimir 110 mil cópias de um só disco da igreja criada pelo missionário David Miranda. O tempo passou e hoje qualquer internauta pode entrar no sítio da Deus É Amor e ouvir o próprio criador da igreja em MP3. Enquanto isso, as encomendas de LPs de seu Nilton vêm caindo ano após ano. Em 2004 o seu maquinário alemão, comprado da extinta PolyGram, produziu 43 mil bolachas. No ano seguinte, foram 32 mil unidades e, em 2006, a produção caiu para 23 mil long-plays. Hoje a PolySom chega a produzir encomendas de apenas 30 discos, para DJs. Nos seus grandes momentos, a empresa de seu Nilton imprime mil rodelas de policloreto de vinil para bandas como a Apokalyptic Raids, de heavy metal. Seu Nilton nunca ouviu um iPod. Ele não acredita no MP3.


Texto em: http://www.revistapiaui.com.br/2007/mar/questao_tecno.htm

sábado, 8 de setembro de 2007

semiótica & pós-modernismo

O SIMULACRO SAIU PELA CULATRA
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Ivan Lessa
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"A bala ecoou pela rua abandonada e foi se aninhar bem do lado esquerdo
da vasta estrela que enfeitava o céu naquela noite de fingimento".
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Baudrillard, o franco-atirador da teoria de que tudo é ilusão,
mandou o Capitão América desta para a pior

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Jean Baudrillard tinha o peito estrelado do Capitão América na alça de mira de seu fuzil semiótico. Molhou de saliva dois dedos da mão esquerda e nela os passou. Baudri, como era conhecido nos meios da capoeira filosófica em Paris, prendeu a respiração, fechou um olho. Acertou no telescópio o outro, o bom, e começou devagar a apertar o gatilho. Estava apoiado na janela do quarto andar de um edifício abandonado em bairro anônimo de Nova York.

Do outro lado da rua, destituído de escudo, fumando um cigarro após o outro, tomando o cuidado de não queimar suas longas luvas vermelhas, a malha de lycra acentuando suas formas másculas, com a vasta estrela branca bem no meio do peito, e as listras vermelhas descendo até a cintura, o rosto como sempre coberto pelo capuz que lhe deixava livre apenas a boca e o nariz para respirar, as duas pequenas asas a lhe enfeitar a máscara (que ele nunca entendera para que serviam) e as botas, sempre vermelhas, que lhe emprestavam uns bons três centímetros a mais na altura, lá estava ele: a pústula irreal do Capitão América, ou Captain America, como preferem os mais jovens.

Ninguém lhe daria mais do que uns 30 e poucos anos. Beirava os 90. Na carteirinha de identidade, que nunca se esquecia de colocar no cinto de utilidades – que copiara de Batman –, seu nome, Steve Rogers, e o endereço de seu modesto apartamento. Em outro compartimento, uma pequena foto do velho companheiro de tantas aventuras, tantas loucuras, Bucky, há muito desaparecido. Possivelmente enfrentando o bando de Alzheimer e seus asseclas num hospital qualquer do Meio-Oeste. Cap, como os mais íntimos o chamavam, recebera um telefonema anônimo, dizendo que estivesse em tal rua e esquina, debaixo de tal lampião, às 11 horas da noite, sem falta. O assunto, dissera a voz disfarçada, era de seu interesse. Cap – a inteligência nunca fora seu forte – compareceu.

A bala ecoou pela rua abandonada e foi se aninhar bem do lado esquerdo da vasta estrela que enfeitava o céu que, naquela noite de fingimento, par nenhum de namorados veria embevecido: estrela a se apagar e a não realizar desejo algum de ninguém. Foi a bala furando o papel de jornal chinês (é mais barato lá), de que era constituído o velho herói, até atingir seu coração de papelão e Cap ir sangrando, sangrando e sangrando nanquim enquanto toda a sua vida desfilava pelos olhos de quem pagara suados trocados pelo número 25 de seu comic book, sua bande dessinée, seu gibi.

Jean Baudrillard, nervoso, deixou a arma por ali mesmo. Pegou de sua capa e pasta de couro – parecia um Lee Harvey Oswald no depósito de livros da biblioteca em Dallas – repleta de anotações para futuros ensaios e, vivendo num mundo que acreditava, não só possível, mas também real, desceu afobado as escadas e saiu à procura de um táxi, como ele, de verdade. Correu alguns quarteirões. Seu coração sentiu o esforço (era quase da mesma idade que Steve Rogers, ou o Capitão América), passou mal, um passante (real, assaz real) chamou a ambulância e o instigante pensador foi levado às pressas para um hospital de Paris, onde após tratamento intensivo (para valer, concreto, genuíno) veio a falecer – pediu o boné, vestiu o paletó de madeira, bateu com as dez, conforme se comentou, no dia seguinte, em bares bem informados do eixo Rio-São Paulo. Pouquíssimos falaram da morte quase no mesmo dia, mas ainda não traduzida para o português, do Capitão América. Baudri foi o papo e a pauta.

Você entende, meu bem, o Capitão América era de mentirinha. Jean Baudrillard, não. O primeiro deverá, mais uma vez, ressuscitar, o segundo não. O primeiro morreu inclusive no cinema em Sem Destino (Easy Rider), de 1969, juntamente com Bucky – Peter Fonda e Dennis Hopper, respectivamente –, filme que os cinéfilos julgam seminal para se entender os anos 60, 70 e a Guerra do Vietnã, embora o esplêndido escritor (para valer, e como!) Terry Southern tenha dado roteiro, boa parte dos diálogos e o título, pinçado num velho blues querido a Southern. “Cap” Fonda e “Bucky” Hopper foram mortos a chumbo grosso em sua moto quando um par de caipiras passou por eles. Morreram de mentirinha. Só no filme. Feito o herói das HQ. Terry Southern e Jean Baudrillard embarcaram para valer. Sem semiotizações maiores.

Pena que continue circulando nos States Frank Miller, responsável por inomináveis tolices que andam por aí – Sin City, 300 – empanando o nome, já meio besteira, de “romance gráfico”, que o bom, mas bom mesmo, Will Eisner, em 1978, criou sozinho, sem Bucky ou Frankie, com Um contrato com Deus e outras histórias de cortiço (lançado pela Brasiliense, entre vós, em 1988). Essas coisas são marketing e nada mais. Existem meio de banda, digamos assim. Mesmo o Maus, do Art Spiegelman, com seu prêmio Pulitzer, me dá sérias dúvidas (não entrarei nelas aqui). Melhor que, como a maior parte das coisas, não existissem. Só atrapalham. Baudrillard estava certo: a Primeira Guerra do Golfo não existiu. Kosovo, muito pouco. O Iraque, com tanta realidade, ou irrrealidade, vamos confundir um tico os pontos de vista, acabou levando Baudri ao fuzil e ao encontro marcado com o Capitão América. Contradizendo o poeta T.S. Eliot, a humanidade suporta um bocado de falta de realidade.

Pincemos, no entanto, o pensador gaulês, que, ao contrário dos super-heróis das HQ, não está mais entre nós: a natureza é imortal e os homens, mortais. Só o hiper-real poderá nos salvar. Os Estados Unidos, no fundo, mesmo com seus espaços abertos para a simulação (tecnologia etc.), são a única sociedade primitiva a subsistir no mundo. Também disse Baudri: “A única coisa a fazer é penetrar na ficção que é a América, nela penetrar como ficção. Pois é como ficção que a América domina o mundo”.

Em breve nas boas livrarias do ramo: A volta do Capitão América. E talvez O pensamento de Jean Baudrillard, um romance gráfico de Frank Miller e equipe. Possível que ambos virem filme.
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Texto em: http://www.revistapiaui.com.br/2007/abr/semiotica.htm
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POST SCRIPTUM
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Enganam-se completamente aqueles que pensam que, por qualquer texto estar
publicado neste blog, o dono do mesmo concorde com eles.
Aliás, o dono do blog tem concordado com MUITO pouca coisa nos ultimos dias...

dialética do pop

B E A T L E S
Marcelo O. Dantas

"Ninguém encontrará um solo de 15 minutos num disco dos Beatles.
Mas eles tocavam com convicção, com gosto. Num estilo próprio, inigualável".



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As contradições entre o apaulíneo e o johnisíaco ajudam a explicar
a permanência do grupo inglês


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Ainda outro dia, um amigo me mandou um e-mail contando que havia presenciado uma cena saída diretamente do seriado Túnel do tempo. Encostados no balcão do bb Lanches, no Rio, dois garotos, de no máximo 13 anos, conversavam assim: “Você sabe por que eles fizeram Taxman? Porque na Inglaterra tinha imposto pacas. Eles fizeram uma música de protesto!”. Ao que o outro aquiesceu, acrescentando mais um caminhão de informações sobre o hino antitributário do álbum Revolver.

Meu amigo ficou estupefato. Era como se nós dois estivéssemos ali, 30 anos antes, tomando um suco depois do colégio. Nessas três décadas, o mundo virou do avesso. Acabou a guerra fria, o regime militar, a paz no Leblon. Sérgio Dourado faliu, Star Wars cansou, Joey Ramone morreu. Foi-se tudo e mais um pouco. Mas os garotos ainda estão lá, falando dos Beatles.

Alguns historiadores do rock atribuem o fenômeno às vantagens do pioneirismo — os Beatles foram as pessoas certas no momento certo. Tinham o talento, o visual e a ousadia necessários para ocupar o vazio deixado pelo esgotamento criativo de Elvis, Chuck Berry, Little Richard e companhia. Mal despontaram para o estrelato, entenderam a importância de se posicionarem na vanguarda de uma década revolucionária. E foram assim pavimentando o caminho para a explosão internacional do rock, a difusão da contracultura e a grande revolução musical e comportamental dos anos 60.

Embora sensato, o argumento se refere apenas ao passado. Não explica nada sobre a permanência dos Beatles. Nenhum moleque vai sair da sua casa e ir até o camelô da esquina comprar um cd por conta do papel histórico de uma banda na formação do mundo moderno. Além do quê, sejamos objetivos: os anos 60 terminaram faz tempo. Permanece então a pergunta: como pode alguém se apaixonar pelos cabeludos de Liverpool em meio ao cinismo e à desesperança do século xxi? Como pode um jovem saudável contrair a febre da beatlemania em plena era do hip-hop e da cultura digital? O palpite é simples. A música — tudo se resume à música.

Os quatro nunca foram instrumentistas virtuosos. Ninguém encontrará um solo de 15 minutos num disco dos Beatles. Mas eles tocavam com convicção, com gosto. Num estilo próprio, inigualável. Utilizando até a última gota os recursos técnicos a seu dispor. Quando necessário, sabiam acolher a contribuição de amigos brilhantes. E, como num passe de mágica, o convidado era incorporado ao som da banda, tornando-se o quinto elemento: Clapton arrancando gemidos da sua Les Paul em While My Guitar Gently Weeps, Billy Preston incendiando Get Back com seus teclados endiabrados.

Outra virtude: eles cantavam bem. Talvez sem o virtuosismo de Ray Charles, Sam Cooke ou Aretha Franklin, mas com fabuloso esmero. Cantar não é apenas uma questão de extensão vocal e técnica apurada. É também possuir um bom timbre, e usar a voz com caráter, potência, precisão. Quem pode resistir ao suíngue vigoroso de Lennon em Twist and Shout ou ao charme nostálgico de McCartney em When I’m Sixty-Four? Quem consegue ser mais expressivo que John em I’m So Tired ou mais irado que Paul em Helter Skelter? Mesmo George e Ringo tinham seus momentos. A performance do homem dos anéis em Boys merece figurar em qualquer antologia de rockabilly. Os vocais de Something fizeram a cabeça até do exigente Sinatra.

Eles eram também mestres da harmonia. Sabiam como poucos combinar suas vozes, fazer arranjos, colorir as canções com impecáveis duetos e corinhos. De If I Fell a Because, John, Paul e George fizeram o diabo. Durante seus anos de formação, os três beberam na melhor escola da música negra americana, ouvindo muito rythm’n’blues e soul music. Eles se ligavam mais no som de gravadoras como a Motown, a Stax-Volt e a Atlantic do que propriamente no blues raiz da Chess Records, porém ainda assim curtiram, aprenderam e internalizaram uma música negra legítima. Cheia de balanço, alegre, contagiante. Que os influenciou até o final — especialmente ao blackman McCartney. Let It Be não é outra coisa senão um poderoso hino gospel cantado por um pastor de alma retinta.

Eles tocavam tudo, ouviam tudo. Sabiam aprender e recriar. Poucos grupos, em toda a história do rock, conseguiram ser uma banda cover tão boa como os Beatles. Os quatro tocavam Please Mr. Postman, You Really Got a Hold on Me, Roll over Beethoven, Money (That’s What I Want), Rock and Roll Music ou Kansas City vários furos acima dos originais. Coisa que nenhum dos demais integrantes da invasão inglesa jamais chegou a fazer. Os Stones eram intérpretes sofríveis de Muddy Waters e Howlin’ Wolf. Os Beatles cantavam Smokey Robinson melhor que o próprio.

Eram também ousados, destemidos. Capazes como ninguém de desbravar novas áreas para o avanço da música popular. She Loves You, And I Love Her, Yesterday, Norwegian Wood, Day Tripper, Paperback Writer, Strawberry Fields Forever, Lucy In The Sky With Diamonds, A Day In The Life, All You Need Is Love, Lady Madonna e Here Comes The Sun alargaram o universo de possibilidades da música pop, trazendo novas formas de tocar, novos estilos, novas técnicas de gravação, novas estruturas de composição.

Atribuir tanta inventividade apenas ao produtor George Martin (como o fazem alguns críticos) é uma tolice que só pode ser cometida por quem nunca ouviu Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band — com Peter Frampton e os Bee Gees. Foi o maestro quem produziu o disco. E a genialidade nem passou por perto.

amadurecimento musical da banda pode corresponder, facilmente, ao amadurecimento natural de qualquer pessoa que vai se descobrindo um amante da música. E, por isso, atrai, conquista, cria vínculos. Além do que, trata-se de um amadurecimento generoso, inclusivo, ponderado, que jamais pretendeu renegar a simplicidade dos primeiros anos. Os Beatles adicionaram novas veredas a sua trilha inicial, sempre com a convicção de que o simples e o complexo são duas formas distintas de se chegar à beleza. Penny Lane nunca será melhor que I Saw Her Standing There. Apenas diferente. Uma forma distinta de se chegar à perfeição.

Adiversidade e a amplitude do som dos Beatles criam várias portas de entrada para quem está começando a se interessar por música. Conheço pessoas que se viram atraídas pelo balanço juvenil de I Should Have Known Better, pela viagem indiana de Within You and Without You, pela elegância clássica de Eleanor Rigby, pela lucidez enérgica de Revolution, pelo sabor folk de Blackbird e pela fantasia sing-along de Yellow Submarine. Cada um chegou ao quarteto por uma via diferente; e, a seu modo, todos acabaram por fazer o circuito completo.

Os Beatles eram um mecanismo de criação. Sempre olhando para a frente, sem jamais se escorar no êxito formulaico. A força propulsora desse mecanismo era (eis a minha tese central) a interação dialética de Lennon & McCartney. Uso a palavra sem pedantismo, em seu sentido mais amplo. Dialética é diálogo, embate, discussão. Mas também o jogo permanente e sem descanso. Adição e contradição; unidade e multiplicidade; identidade e diferença. Movimento e síntese. Dois compositores igualmente geniais, mas com inclinações distintas, por vezes opostas. Dois líderes cheios de idéias e talento. Um levando o outro a permanentemente se superar. Ambos avançando: ora juntos, ora separados. Nenhum permitindo ao outro se acomodar. Nenhum aceitando ser deixado para trás.

Em geral, as grandes parcerias musicais são compostas por um melodista e um letrista, que unem forças, formando uma perfeita unidade: Rodgers e Hart, George e Ira Gershwin, Tom e Vinícius, Lieber e Stoller, Page e Plant, Keith Richards e Mick Jagger, Elton John e Bernie Taupin. No caso de Lennon & McCartney tudo muda. Ambos eram compositores completos, autônomos. Mas entenderam, desde cedo, a importância de buscarem um ao outro. Muitas duplas de compositores somam. John e Paul multiplicam.

As narrativas mais comuns da trajetória dos Beatles levam a crer que a parceria Lennon & McCartney existiu apenas na fase inicial do conjunto, tornando-se mais tarde mera convenção. Trata-se de um engano. Eles foram parceiros até o final. Mesmo quando escreviam separados, John e Paul o faziam um para o outro. Pensavam, sentiam e criavam obcecados com a presença (ou ausência) do parceiro e rival.

Sem a contribuição decisiva de Mc-Cartney, jamais teríamos algumas das mais inspiradas canções de Lennon. Deve-se a Paul a abertura de Strawberry Fields Forever, o arranjo grandioso de All You Need Is Love, os efeitos de tape de Tomorrow Never Knows, a alucinação de I Am The Walrus, o ambiente sobrenatural de Come Together. Lennon era um purista musical, apegado a suas raízes, calcadas no rock’n’roll, rythym’n’blues e country & western. Quem embarcou de cabeça na vanguarda musical dos anos 60, quem verdadeiramente viajou na explosão sonora lisérgica foi Paul McCartney, um perfeccionista dado a experimentos, colagens, finais falsos, mudanças tonais e delírios orquestrais.

Em contrapartida, sem o olhar crítico de Lennon, sem sua verve e sua wit britânica, os mais conhecidos standards de McCartney teriam sofrido perdas poéticas. A letra reflexiva de Yesterday (inicialmente intitulada “Scrambled Eggs” – ovos mexidos, quando Macca tinha na cabeça apenas uma melodia sem palavras) foi uma clara resposta de Paul ao amadurecimento da poesia de John em I’m A Loser, Help! e You’ve Got To Hide Your Love Away. Lennon emprestava às baladas e canções pop de McCartney uma lucidez e uma sobriedade fundamentais. Ele sabia reprimir o banal e fomentar o sublime. Foi sentando- se ao lado do companheiro que Paul ganhou confiança para manter na íntegra os versos mais ousados de The Fool On The Hill e Hey Jude. Duas letras de primeira grandeza.

Em algumas canções, um ligeiro toque de Lennon fazia a diferença entre o excelente e o genial. A melhor estrofe de We Can Work It Out é de John: “Life is very short / and there’s no time / for fussing and fighting my friend”. Sem a intervenção cirúrgica do autor de Being For The Benefit of Mr. Kite e Happiness Is A Warm Gun, tampouco haveria em Eleanor Rigby a estranheza surrealista dos versos: “Waits at the window / wearing the face / that she keeps in the jar by the door /Who is it for?”. Do mesmo modo, a entrada em cena de John — na voz dos pais desesperados — é indispensável a She’s Leaving Home, talvez a mais comovente e perene canção sobre o conflito de gerações e a juventude drop-out. Canção que inspirou o nosso Rubem Fonseca a escrever a obraprima Lúcia McCartney.

A sombra ameaçadora de Lennon fornecia ainda combustível para os ímpetos rockeiros de seu parceiro e rival. A visionária Back In The USSR traz o humor irônico de John estampado no rosto. Canções como I’m Down e Why Don’t We Do It In The Road foram feitas por Paul para mostrar a John que conseguia ser ainda mais primitivo que ele. E Get Back — o melhor rocker de toda a obra dos Beatles — nasceu da (compreensível) irritação de Paul com Yoko e do seu desejo de deixar bem claro quem continuava a ser o dono do pedaço.

Mas como a dialética é uma via de mão dupla, também o lado suave de Lennon se nutria da presença benfazeja de Paul. A belíssima melodia de In My Life é puro McCartney e gemas preciosas como Girl, Because ou Julia têm as impressões digitais do parceiro por todos os lados, ainda que tenham sido escritas na mais monástica solidão.

Nietzsche atribui o caráter dionisíaco aos nossos impulsos rebeldes, subjetivos, irracionais, apaixonados, lunares; forças do transe e da intoxicação, que questionam e subvertem a ordem vigente. Em contrapartida, designa como apolíneas as nossas tendências ordenadoras, objetivas, racionais, serenas, solares; forças do sonho e da profecia, que promovem e aprimoram o ordenamento do mundo. Ao se unirem, tais forças teriam criado, a seu ver, a mais nobre forma de arte que jamais existiu.

Como criadores, tanto o metódico Paul McCartney quanto o irrequieto John Lennon expressavam à perfeição a dualidade proposta por Nietzsche, que ouso traduzir pelos termos Apaulíneo e Johnisíaco. Lennon punha o mundo abaixo; McCartney construía novos monumentos. Lennon abria mentes; McCartney aquecia corações. Lennon trazia vigor e energia; McCartney impunha senso estético e coesão. Não raro, os papéis se alternavam, se complementavam, se fundiam.

Quando os Beatles se separaram, essa magia se rompeu. John e Paul se tornaram compositores com altos e baixos; intérpretes com falhas às vezes evidentes. Fizeram coisas boas. Deram material para compilações de peso. Mas raramente se aproximaram da perfeição alcançada pelo quarteto. Sem a presença instigante de Lennon, Paul começou a patinar em letras anódinas e baladas açucaradas. Seus rockers perderam a força vital e muitos arranjos deixaram de ser pautados pelo sentido da boa medida. A alma negra embranqueceu. Não se tornou um compositor ruim. Mas se aproximou perigosamente de Elton John e Burt Bacharach. Mesmo Band On The Run parece por vezes um Abbey Road sem dentes. É música de grande qualidade. Mas os Beatles faziam melhor.

Do mesmo modo, John sofreu com a falta de Paul. Plastic Ono Band, embora genial, é um verdadeiro festival de excessos idiossincráticos. Em Imagine, John ensaia um bem-sucedido retorno à estética Beatle, mas logo em seguida a presença de Yoko irá se impor, destruindo o equivocado Sometime in New York City.

Ironicamente, o grande disco dos ex-Beatles, a verdadeira obra-prima, acabou sendo All Things Must Pass, o álbum triplo em que George Harrison deglutiu os antigos companheiros de banda, abrindo as comportas de sua produção musical, represada durante uma década à sombra de John e Paul. E foi assim, por estranhos caminhos antropofágicos, que a dialética de Lennon & McCartney brilhou pela última vez.
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Texto em: http://www.revistapiaui.com.br/2006/dez/dialetica.htm


sexta-feira, 7 de setembro de 2007

da série AS BANDAS DA MADALENA

L U N A
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Por Marcos Lamiz
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A banda americana Luna é considerada por muitos a que melhor assimilou a influência do Velvet Underground na história do rock. Formada pelo guitarrista Dean Wareham em 1991, em Nova York, após o fim da cult band Galaxie 500, o Luna já nasceu com status de banda respeitável.
Com uma textura hipnótica, melódica e poética, a sonoridade da banda tem admiradores em todos os cantos do mundo. Mesmo em lugares que nunca tiveram um disco lançado e as pessoas precisam recorrer às importadoras, o Luna é idolatrado como a pérola da música pop.
O guitarrista, vocalista e letrista Dean Wareham, nasceu a 1 de agosto de 1963, em Wellington, na Nova Zelândia, mudou-se para a capital Sydney em 1970, para Nova York em 1977 onde fez o colegial, cursou a universidade em Boston, mudou-se para a Alemanha em 1986, voltou para Boston em 1987, onde formou o Galaxie 500 e tocou até 1991, lançando três discos preciosos. Suas inspirações para escrever belas canções pop vem de livros, filmes e de sua vida particular.
Ensaiando os primeiros passos após o fim do G500, em julho de 1991Dean lançou o ep "Anesthesia" com o amigo Chimmy Chambers, do Mercury Rev. Em seguida, chamou o baixista Justin Harewood que tocava no Chills – uma das mais populares bandas da Nova Zelândia – e o baterista Stanley Demeski, ex-Feelies – uma importante banda pós-punk da cena novaiorquina no final da década de 70.
Com a respeitabilidade do G500 no meio independente, a mídia ficou atenda à nova banda, originalmente batizada de Luna2. Em 1992, saiu o primeiro álbum. "Lunapark" revelava o futuro promissor da nova banda, com uma sonoridade extremamente melódica. Clássicos como "Slash Your Tires" são obrigatórios nos shows até hoje.
Curiosamente, com apenas um álbum na discografia, o Luna foi convidado para abrir os shows da mini-turnê que o Velvet Underground fez na Europa em 1993. Os músicos do Luna passaram três semanas ao lado dos ícones da história do rock. Com isso, Dean fez amizade com o guitarrista Sterling Morrison e até saíram juntos para beber em bares.
Em 1994, Dean conquistou o sucesso e admiração que tanto perseguia com sua ex-banda. "Bewitched" revela o músico como um dos melhores compositores do rock alternativo mundial. "California All The Way", "Tigger Lily", "Friendly Advice", "This Time Around", "I Know You Tried" e "Great Jones Street" são instantâneas, grudam na memória e faz você ficar cantarolando a melodia. Este disco saiu tão inspirador graças à participação de Sterling Morrison tocando guitarra em duas músicas. Nada mais que um dos ídolos de Dean tocando ao seu lado no estúdio
Aproveitando a fase inspiradora, a banda lançou o terceiro álbum logo em seguida. "Penthouse" também traz outro ídolo de Dean tocando guitarra. Tom Verlaine, do Television, tocou em "Moon Palace", uma das mais belas canções da "lunografia". Músicas como "23 Minutes in Brussels", "Sydeshow By Seashore", "Lost in Space" e "Chinatown" fazem com que a banda fique num meio termo entre o alternativo e o pop quase mainstream, com um lugar entre os 150 melhores discos da história na votação da revista Rolling Stone. Porém, o destaque deste disco é a cover de "Bonnie and Clyde", um clássico do pop rock francês composto em 1968 por Serge Gainsbourg. A vocalista Laetitia Sadier, do Stereolab, divide os vocais com Dean num dueto impecável.
Dois anos depois, em 1997, Dean escreve o que considera o melhor disco da banda. Em "Pup Tent", o compositor deixa mais claro uma de suas maiores influências. O cinema, depois da música, é a grande motivação para Wareham. "Bobby Peru" é o nome da personagem de Williem Dafoe no filme "Coração Selvagem", de David Lynch e "Tracy I Love You" é o nome do último filme pornô feito pela atriz Tracy Lords. Com este disco, a banda saiu ao mundo. Tocou na Europa, Japão e Austrália.
Em 1999, "The Days of Our Nights" é lançado num clima conturbado. Inxeplicavelmente, a gravadora Elektra cancelou o contrato com a banda. Paradoxalmente, o disco foi o que teve a maior produção, com a banda ficando mais de três meses em estúdio gravando, o que normalmente acontecia no máximo em um mês.
Com oito anos de banda, o disco "Luna Live!" serviu mais para mostrar aos novos fãs algumas músicas antigas, bem como um registro dos shows para os países que ainda não tiveram a oportunidade de ver a banda ao vivo. Com 14 canções gravadas em três shows em Nova York, entre dezembro de 1999 e julho de 2000, o álbum faz uma retrospectiva de toda a discografia, bem como traz "4th of July", do Galaxie 500. Também é o primeiro registro com a nova baixista, Britta Phillips (ex-Belltower e Ben Lee e ex-atriz), substituta de Justin que voltou para a Nova Zelândia para ser pai de família.

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LUNA no Brasil

Por Andhye Iore

Canção para embalar sentimentos

O show da banda americana Luna, em Londrina, no dia 28 de setembro de 2001, foi um dos melhores do ano e serviu para habituar os roqueiros da região a aceitar um outro conceito de música ao vivo.
Quem se incomodou com o baixo volume no show do Yo La Tengo, em fevereiro desse ano, também ficou decepcionado com o Luna. Apesar do volume normal, o que incomodou dessa vez foi a deliciosa lentidão das músicas.
Um show arrastado, na medida exata para embalar lembranças alegres e sonhos de um futuro melhor. Como se não bastasse, ao vivo a banda lembra ainda mais Velvet Underground. O que poderia ser um defeito, se encaixa como uma luva, já que Dean Wareham segue cada passo de Lou Reed com muita propriedade.

Timidez

Em uma hora e sete minutos, o Luna tocou 14 canções divididas entre os discos "Bewitched", "Pup Tent", "Penthouse" e "Days of Our Nights". Os destaques foram "Tigger Lily", cantada em côro, "Slash Your Tires" e "Bonnie and Clyde". Nestas três músicas, o público aplaudiu, cantou e dançou timidamente.
O show passa uma certeza na história da banda. O Luna pode, tranqüilamente, ser dividido em a.B. e d.B. Ou seja, antes da baixista Britta Phillips entrar na banda e depois de sua presença. É incrível como ela chama a atenção do público. Sem contar que tem uma belíssima voz, o que é essencial.De mini-saia preta, bota de couro, delicadas paletadas nas cordas do baixo rosa e uma sensualidade exalante, Britta parece ter saído de uma letra de Lou Reed. Uma musa do submundo que enfeitiça pelo olhar, pela voz e pela imaginação.
Sem dúvida alguma, a banda ganhou muito. As canções em que ela faz
backing vocal, "4000 Days", "Tigger Lily" e "Superfreak Memories", ficaram mais melódicas – se é que é possível – e sua participação no no processo de composição do disco novo foi confirmado por ela mesma.

Clássico

Ao vivo também se percebe que o clássico do Luna é a cover para "Bonnie and Clyde". No disco, esta canção é, de longe, uma das melhores já feitas na história do rock. Sem exagero. E, ao vivo, Britta substitui muito bem Laetitia Sadier, do Stereolab, no dueto. O que não é muito fácil. Até Dean se empolgou e deu uns pulinhos desengonçados enquanto o público à frente do palco entrava numa histeria intimista, contida.
A grande surpresa do show foi a ausência de "4th of July", da antiga banda de Wareham, o Galaxie 500. Gravada no recente "Luna Live", esta música vinha sendo tocada nos últimos shows nos Estados Unidos e, nas entrevistas antes de embarcar para o Brasil, Dean prometeu aos fãs que ela estaria no set list.
Erro perdoado. Quem abre o show sussurrando um relacionamento com uma garota que nunca pede, sempre grita, mas que ele corre para ela assim mesmo, pode se dar ao luxo de mudar um repertório tão belo e invejável por dois motivos.
O primeiro, é que poucas bandas conseguem compor tantas músicas de impacto emotivo no público. O segundo, é a coragem e competência musical de manter ao vivo o estilo "música para ouvir" que recheia a discografia do Luna. Salve Dean Wareham e obrigado aos produtores da turnê brasileira!

Entrevista

Andhye IoreNa seção "O Que Dean está lendo e ouvindo" do site do Luna, há várias referências a cinema. Assim como nas canções do Luna. Por que a fascinação com cinema em sua vida?
Dean Wareham
- O cinema está à nossa volta, impregnando nossa vida e permanecendo em nossa consciência. Eu sei que não sou o único interessado em cinema.
Você tem idéia de quanto o Galaxie 500 é importante no mundo do rock?

Tenho certeza que influenciamos várias pessoas a montarem bandas, o que pode ser algo bom ou ruim. Nós não precisamos reinventar a guitar music, mas tivemos sorte em descobrir nossa própria sonoridade de maneira especial.
Perguntei isso porque no Brasil, o G500 tem o mesmo status (até mais) que o Luna...

É legal saber isto.
Bandas como Stereolab, Luna, Yo La Tengo e Belle & Sebastian tem músicas no estilo bossa nova. Você conhece algo sobre este gênero musical brasileiro?

Me parece que está voltando a ser popular novamente nos Estados Unidos. Mas, provavelmente, é mais no Japão. Talvez, muitas bandas estão tocando bossa nova sem ter o que fazer. A minha bateria eletrônica tem uma opção de bossa nova que usamos em "4000 Days". De qualquer maneira, não sou um especialista, mas quem não gosta de João Gilberto e Antônio Carlos Jobim? Sou fã do álbum que o Sinatra fez com o Jobim. (N. R.: "Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim", disco com dez canções lançado em 1967, pela Reprise.)
Você fica chateado quando as pessoas comparam o Luna ao Velvet Underground ou isto te deixa orgulhoso?

Bom, não acho que isto seja correto, estou um pouco cheio disto. Mas, ao mesmo tempo, o Velvet Underground é uma das minhas bandas favoritas, é claro. Prefiro eles aos Beatles.
O fato de vocês terem tocado com o VU em 1993 foi como um sonho pra você?

Bem, naturalmente, você fica nervoso estando próximo às pessoas que você tem grande admiração. Mas, eles foram legais conosco.
A turnê brasileira terá nove shows... geralmente, as bandas internacionais não fazem tantos shows assim por aqui. Quais são as suas expectativas?

Nós vamos tocar as canções que estamos tocando em nossa turnê. Não tenho idéia do que vou encontrar aí.
No álbum mais recente, "Luna Live", vocês gravaram "4th of July" do G500. Os fãs brasileiros terão a sorte de ouvir alguma música do G500 na turnê brasileira?

Provavelmente, tocaremos esta música. Talvez, aprenderemos outra. Mas, geralmente, nos limitamos ao catálogo do Luna.
No Brasil, as gravadoras não contratam bandas que cantam em inglês. Qual a sua opinião sobre isso, uma vez que várias bandas de outros países fazem sucesso cantando em inglês e não em sua língua original?

Algumas bandas européias estão cantando em inglês. Mas, acho que é melhor cantar em sua própria língua... e, o português soa bonito para mim.
O Luna vem tendo problemas com gravadoras. Por que isto acontece uma vez que vocês gravam bons discos,tem um bom conceito na mídia e muitos fãs em todo o mundo?

Acho que é parte do mundo da música, que está mudando rapidamente nestes dias. Se você grava discos, terá problemas contratuais da mesma maneira.
Luna tem um site com material sobre a banda. O quanto a internet é importante para vocês?

Nós não fazemos muita coisa com a internet, mas tentamos fornecer um pouco de informação sobre o que estamos fazendo. Em breve, colocaremos alguns vídeos também.
Vocês já trabalharam com pessoas conceituadas e tem um círculo de amigos legais no mundo da música. Você acha que a sonoridade do Luna atrai coisas positivas?

O nosso relações públicas anterior, quando estávamos na Elektra, dizia que a música do Luna tem o poder de curar, mas não resolvemos seus problemas. Sei que os melhores momentos da minha vida foram ouvindo música. Felizmente, temos este efeito para as pessoas que gostam de nós.
Desde o G500, você grava covers. Como você escolhe as músicas que ganharão uma versão?

Na maior parte, escolhemos artistas que respeitamos. Com exceção do Guns’n’Roses. Não há um sistema exato para isso.
No álbum "Days of Our Nights" vocês gravaram uma cover "não séria" – "Sweet Child O’Mine". Por que você escolheu esta canção?

Gostamos desta música e ela foi gravada originalmente como lado B de um single. Ouvi boatos que o Guns’n’Roses não a escreveu, que eles compraram a música de uma pessoa.
Vocês estão no estúdio gravando o disco novo e você tem um pequeno estúdio na sua casa. Como você trabalha com a tecnologia?

Não sou um perito com as novas tecnologias e não sei como fazer música no meu computador. Mas, trabalhamos com pessoas que sabem essas coisas. Geralmente, fazemos discos da maneira antiga: sentando e gravando em fita analógica de 2 polegadas.
No novo disco será lançado no início de 2002. Você pode adiantar alguma coisa para nós?

Não acho que terá alguma cover neste disco. Embora, talvez no Brasil, solicitaremos a inclusão de bônus no cd. Não mudamos nosso som drasticamente, mas acho que teremos um disco melhor desta vez.

Comentário do show e entrevista em: Entrevista em: http://www.odarainternet.com.br/supers/musica/luna-entre.htm

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"A million, a billion, a trillion stars..."


I will admit, right off, that I teared up during the opening of Tell Me Do You Miss Me, the documentary film of Luna's farewell tour over the end of 2004 and early part of 2005. In the sequence in question, the band has just finished playing "Fuzzy Wuzzy" to finish the main set of their last-ever show on February 28, 2005 at New York City's Bowery Ballroom (at least according to the setlist) and are bidding farewell to the audience and to themselves.
Tell Me Do You Miss Me is full of these wistful, bittersweet moments - watching the band going about the shows knowing full well that the end was nigh is a strange perspective. The interviews with each of the band members are also quite revealing, particularly when it addresses the dynamic between Dean Wareham and Sean Eden, which is logical since they're the longest-serving remaining band members. It's not hostile or
Some Kind Of Monster dyfunctional, but is interesting to watch. I haven't listened to the commentary track with all the band members yet, but I can't wait to hear what, if anything, Wareham and Eden have to say about the scenes where they talk about one another. I am actually holding off on watching it a second time through with the commentary because, well, this DVD is probably the last new Luna release of any kind there'll ever be and I'm loathe to finish it for good. Stupid? Yes. It's also worth mentioning that the film itself is beautifully shot and assembled, perfectly balancing the live, backstage and interview footage.
But mainly, watching this film really brought home just how much I loved this band. Certainly enough to get me, who is loathe to hoof it to a venue more than 20 minutes away, to
fly to Chicago not one week after seeing their farewell Toronto show to say goodbye one more time. Though I arrived a little late to the party (I only discovered them after taking a complete flyer on Bewitched in Summer 1999, note unheard) they're easily one of my top two or three favourite bands ever. Cryptic, playful, laid back and musically perfect, there will probably never be another band that will be for me what Luna was. Read over some of the rememberances in the farewell tour fan blog and you'll see I'm not alone.
Obviously, the DVD is a must-have for any Luna fan, if only to see
this photo in the booklet and to see me get a liner note credit. There are some murmurs that the soundtrack to the film, which was comprised of instrumental pieces contributed by all members of the band, may be released at some point. Now's a good time to repoint you to the interviews Head Full of Wishes, who has been on a tear posting old Luna audio and video, did with all the principals of the film - Britta, Lee, Sean and Dean as well as director Matthew Buzzell.
Rhino, who released the DVD as well as the
Best Of Luna and Lunafied comps, has got the trailer of the film online as well as a complete performance of "Bewitched" that doesn't appear in the film. There's also some live downloads available from Luna's own website.

Trailer:
Tell Me Do You Miss Me
Video:
Luna - "Bewitched" (MOV)
MP3:
Luna - "Friendly Advice" (live)
MP3:
Luna - "The Slow Song" (live in Toronto)

And where are they now? Dean and Britta carry on as
Dean & Britta and will release their second album early next year. Sean is working on solo material and also occasionally plays in Elk City - you can hear his distinctive guitar touches in the MP3 below. And according to the film, Lee is riding a bike around Los Angeles while also providing music for the television show South Of Nowhere.

MP3:
Britta Phillips & Dean Wareham - "Ginger Snaps"
MP3:
Elk City - "Silver Lawyers"

ArtVoice talks to Yo La Tengo's Ira Kaplan about the forthcoming I Am Not Afraid Of You And I Will Beat Your Ass, out September 12. Via LHB. Losing Today talks to Asobi Seksu's Yuki about sophomore album Citrus. And to finish off with the New York theme, here are my New York City photos as well as sets from The Met and MoMA.
Finally, completely un-NYC-related,
The Toronto Sun and London Free Press talk to Wilco's Jeff Tweedy while Halifax's The Coast chat with John Stirratt. Massey Hall tonight! My extra ticket was snatched up quickly, thankfully.

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DISCOGRAFIA

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Não deixe de ver, para a DISCOGRAFIA e mais um monte de coisas boas:
http://www.ugo.com/channels/music/features/bandsondemand/artist.aspx?artist=luna&cat=Indie&full=Luna


E, se quiser comprar:


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