domingo, 12 de junho de 2011

SALMO 23



O salário é um bom trator; tudo me faltará
Ditar-me faz em camas ruins; sim, sim!, oh, sim!
porque os colchões Ortobon são caros p’ra cacete
Dá-me pesadelos dormir assim, & dores na coluna
& ando errante pelas ruas da cidade, praguejando...
pois a justiça é a conveniência do mais forte
& a verdade pertence a quem paga mais
& ainda que eu andasse por vales verdes, ensolarados
& à sombra das cerejeiras, não me consolaria
pois tudo isso não seria meu, ah!, eu saberia!
mas de algum novo senhor deste enorme engenho
esses que ocupam as mesas dos restaurantes mais caros
na orla de Tambaú, & de Cabo Branco, & de Intermares...
& os meus inimigos se riem de mim, na minha cara
& o meu cálice de pinga transborda, & a minha cabeça dói
& não tem Anador nenhuma que dê jeito nessa porra... ai!
Certamente que a maldade & o desamor me alcançarão, sim!
me seguirão todos os malditos dias da minha maldita vida
& habitarei neste inferno para todo o sempre, até o fim



segunda-feira, 6 de junho de 2011

Nada é de graça! Nada!

(uma carta-manifesto)




Bem recentemente, quando se soube que a SECULT (Secretaria de Cultura do Estado da Paraíba) apoiaria o lançamento do livro “Fela – Esta Vida Puta” (editora Nandyala), do cubano Carlos Moore, e que o mesmo vinha com um depoimento do seu secretário, o paraibano de Catolé do Rocha, Chico César, surgiu a discussão sobre o tipo de apoio que a SECULT estaria dando, e se, caso houvesse algum apoio financeiro, era coisa legítima, legal e moral, uma vez que, deixando de apoiar artistas locais, etc., estaria apoiando – independentemente da importância do livro e de seus envolvidos – particulares (autor e editora) que não têm ligações outras com o Estado. Enfim, essa não é, aqui, a questão que quero colocar. Minha intenção, por hora – uma vez que um amigo (Edy Gonzaga) mencionou meu nome em uma afirmação que tenho usado com alguma frequência (“Nada é de graça!”) –, é demonstrar o fundamento do afirmado: a não gratuidade de eventos que se dizem gratuitos. Tarefa que não é de difícil demonstração, e menos ainda de compreensão.
...........Imagine que, no caso acima, a SECULT tenha apenas dado “apoio moral”, com a boa intenção de “divulgar a vida e a obra de um líder negro muito importante”; imagine ainda que, excetuando a propaganda feita sobre o tal lançamento do livro, envolvendo o nome da secretaria, não houvesse despesa alguma para a mesma – ou para o contribuinte, nós, no caso. Pois bem, eu estive no lançamento do livro, na noite do dia 25 de maio de 2011, nas dependências do Sebo Cultural, e posso falar do que vi, do que vejo, do que sei.
...........1) Não foi de graça que o Sebo abriu suas portas ao lançamento. Por que? Porque o Sebo estava em plena atividade, gastando energia, pagando funcionários, vendendo livros, etc. – eu mesmo comprei um, no dia (uma coletânea de poemas de três poetas beat). Associados ao lançamento estavam, neste caso, o nome do Sebo, sua propaganda, investimentos e lucros (capital simbólico e comercial);
...........2) Havia um equipamento de som – de onde veio? Eu sei: uma amiga o emprestou (não preciso dizer seu nome, claro; mas tomei uma cerveja junto a ela, e fumei um Hollywood que a mesma me cedeu) e, para leva-lo, com certeza teve gastos: mão de obra, combustível, tempo, etc. Aliás, a mesma me confidenciou estar na ativa desde cedo, e já eram quase 22:00;
...........3) Havia um carrinho de espetos e cerveja na entrada – e ele somente estava ali por causa do movimento que havia na noite. Ou seja: alguém, que nada tem a ver com o evento, também teve algum lucro com ele (como também ocorre com os ambulantes ali pelo Centro Histórico em dias de eventos) – e adivinhem onde foi que eu comprei a única cerveja que bebi naquela noite?
...........4) Duas questões que não sei responder, e quem vêm ao caso meramente como ilustração: a) quem pagou a passagem do autor do livro sendo lançado, e b) sua hospedagem e locomoção até o local do evento e após? Vocês hão de convir que, para isso, gastos são necessários;
...........5) Quando ao público, me coloco como exemplo. Eu mesmo, para me locomover até o local do evento “gratuito”, e como os demais, tive de pagar a minha passagem de ônibus ou o combustível para o meu carro. Ou seja: mesmo isto sendo um pequenino gasto – insignificante mesmo; mas significante, se levamos a questão ao pé da letra –, é, afinal, um gasto;
...........6) Imagine que você, andando ali pela Antenor Navarro, recolha uma garrafa de cerveja, long neck, vazia. Você olha para o seu amigo e diz: “Quanto custa isto?” Ele dirá, certamente. “Nada. Isso é lixo.” Só que, ao comprar a tal cerveja, o desconhecido proprietário daquela garrafa, agora vazia, não pagou apenas pela cerveja, mas também pelo seu vasilhame; embora tenha se livrado dele após sorver o seu liquido. Sim, aquela garrafa, vazia, tem muitos preços: de fabricação, de transporte, de impostos, etc. – mesmo que, aparentemente, agora, nada custe;
...........7) Outras questões, com certeza, poderiam ser elencadas aqui, mas estas, creio, servem para ilustrar o que estou tentando dizer desde o início – contra as palavras de quem ousa dizer que há “eventos gratuitos” (e nem vou tocar na questão de quando tais eventos ocorrem em lugares como bares, em que os artistas nada ganham, além de “divulgarem seus trabalhos”, enquanto o bar ganha vendendo garrafas e mais garrafas cheias de cerveja, ou despejando-as eu outros recipientes, funcionando, ambos, para o que vieram), em que o espectador/público, em teoria, “nada paga”.
...........Pode parecer birra de um cara chato e rabugento – que seja! –, mas, como dizia Martinho Lutero: “A verdade é a verdade, esteja na boca de quem estiver.” Eu acredito nisso. E acredito mais: acredito que nós, artistas – pelo menos os que se levam a sério –, temos de começar a entender muito bem essa mecânica econômica: que alguém sempre sai lucrando com o que fazemos, investimos para poder fazer. E, não!, não estou dizendo que vamos entrar numa “visú” capitalista-mercantilista, e ainda mais se não temos um nome tão bem projetado no meio artístico-cultural da cidade, ou um bom apelo que gere público (isso deve valer contra quaisquer porraloquices-estrelistas de bandas ainda pequenas e pouco expressivas, ou outras expressões artístico-culturais).
...........O que digo, afinal – e se queremos valorizar a nossa arte e o nosso nome –, é que temos de selecionar muito bem os eventos em que vamos tocar (ou apresentar algum outro espetáculo), sabendo que, se alguém sempre sai ganhando com isto, temos nós também, sim, de ganhar alguma coisa – mesmo que essa “coisa” não seja o “capim” com o qual pagamos o leite das crianças.
...........O que digo, finalmente, é que não há eventos gratuitos; e já é hora de, além de nós (e que isso se aplique e se estenda a qualquer outra expressão artística além da música, que é o nosso caso) que pagamos ensaios, aluguel de estúdios, compramos equipamentos, etc., outros também perceberem a esperteza de quem propaga esta velha e safada mentira, apresentando-se hora como promotor ou promotora de alguma cultura, hora como gente bem intencionada, etc. Quando você encontrar alguém muito bem intencionado ou muito bem intencionada, DESCONFIE.
...........E, para concluir, um aviso: não preciso que você, amigo, concorde comigo, se não entende que eu tenho razão! Mas, se assim entender e ainda assim discordar, então, meu amor: vá à merda!
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Patativa Moog é pernambucano; escreve as letras e faz as músicas da banda paraibana Madalena Moog; é professor na FIP (e em outros lugares menos ortodoxos), com mestrado em História da Filosofia e doutorado em Filosofia da Religião, área que também atua como pesquisador.

O império de Fela

'Voz da África' que entrou para a história da Nigéria ao contestar a ditadura de seu país, Fela Kuti tem sua biografia lançada no Brasil

04 de junho de 2011 | 0h 00
Roberto Nascimento - O Estado de S.Paulo

O calvário de Fela Anikulapo Kuti começou em 1974, quando a ditadura nigeriana se deu conta de que o afrobeat era uma ameaça ao establishment. Com uma receita politizada que incorporava as tramas instrumentais de James Brown à polirritimia do oeste africano, a cria musical de Fela tornara-se febre entre as massas do país, denunciando a prefeitura de Lagos, enaltecendo o "eu" africano e expondo as hipocrisias de nigerianos que se submetiam à mentalidade colonialista.

Reprodução
Reprodução
Trajetória de um mito. “Ele falava o que os homens não tinham coragem de dizer”, diz o biógrafo Carlos Moore

A popularidade dos discos Afrodisiac e Gentleman, ambos de 1973, foi o estopim. Um ano depois, Fela, nascido em 1938, foi preso por 50 policiais e passou dez dias na cadeia. Pagou fiança, voltou para casa e somente então descobriu o quanto queriam amordaçá-lo: na mesma noite, a polícia bateu à sua porta e plantou um baseado em seu quarto. "Olhei pro papel. Pensei rápido, cara, rápido mesmo", conta Fela na biografia Fela - Esta Vida Puta, do cubano Carlos Moore, cuja tradução está sendo lançada no País esta semana. "Pulei em direção ao policial, peguei o fumo, enfiei-o na boca e pulei na cama, cara. Engoli a ponta! Peguei a garrafa de uísque ao lado da cama, pus na boca e empurrei a maconha goela abaixo. E aí comecei a esculachar os caras: "Qual é o problema de vocês, seus desgraçados? Olha, eu tô tentando salvar este país, porra. Vocês querem me colocar em cana? O que foi que eu fiz? O que foi que eu fiz? É porque eu fumo? Porra..."

Cantando em inglês e iorubá, sobre composições que duravam de 15 minutos a uma hora, duração decididamente antipopular, Fela foi a voz da África oprimida por quase três décadas mesmo sem ser "marketável" como Bob Marley. A batida descrita é apenas o primeiro dos incidentes que culminaram em um ataque à sua comuna, a República de Kalakuta, em que o Exército nigeriano, liderado pelo ditador Obasanjo, jogou sua mãe de 78 anos do segundo andar e ateou fogo ao local. O episódio, que resultou na morte da mãe, levaria o músico a contemplar o suicídio mas também serviria de inspiração para composições demolidoras como Unknown Soldier, igualada somente por Zombie, em que ridiculariza soldados fantoches; e V.I.P, cuja sigla significa vagabundos no poder.

Através de uma trama polifônica, adaptando depoimentos de Fela, amigos e mulheres a uma narrativa linear, Moore busca retratar a complexidade do maior ícone cultural africano do século 20, homem que gravou mais de 70 discos, ajudou a derrubar um ditador, casou-se com 27 mulheres e liderou uma comuna no coração do gueto de Lagos. "Eu quis mostrar o Fela total", conta Moore, referindo-se às declarações homofóbicas e machistas de Fela no livro, entre elas, "faz parte da ordem natural das coisas as mulheres serem submissas ao homem", "o único tipo de sexualidade que é contra a natureza é a homossexualidade" e "eu nunca bati nos meus filhos, juro. Mas de vez em quando é preciso dar uns pafpafpafs nas minhas esposas".

Moore explica: "Eu reproduzi a visão dele com exatidão. Queria fazer com que as pessoas pensassem. O que ele fala dos gays, o que ele fala das mulheres é o que 99% dos homens pensam, mas não têm coragem de dizer. Fela tinha coragem", completa.

Lançado originalmente nos anos 80, o livro serviu de base para o musical Fela!, hit da Broadway em 2009. Moore foi amigo pessoal de Fela, que morreu em 1997, vítima de aids, e está processando os produtores da peça por terem usado trechos de seu livro sem o compensarem financeiramente.

O escritor teve acesso à intimidade de Fela. Entrevistou todas as 27 mulheres. Viu o músico chorar. "Foi muito difícil. As pessoas não acreditavam. Ele era um cara muito duro, machão, batia de frente com a polícia, falava para todo mundo ser forte, se desprender do medo", conta.

A miséria do nigeriano e sua luta obstinada para desmascarar a corrupção do governo foram presenciadas em primeira mão por Moore, que foi chamado por Fela depois que, de acordo com o próprio, o músico consultou-se com o espírito de sua mãe.

"As batidas eram horríveis. Muitas pessoas não queriam visitá-lo porque tinham medo de sofrer um ataque do Exército enquanto ele estava lá. Eles vinham armados, atacavam com baionetas, estupravam, matavam". A nova edição sai no País com um prefácio de Gilberto Gil.

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Fonte: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110604/not_imp727885,0.php


domingo, 5 de junho de 2011

HOJE, NO CIRCO: O FIM DO MUNDO!

Uma audição falada para o EP “Coisas belas e sujas”, do projeto Cinemerne



“Feche os olhos! Deus está dançando.” (Paulo Henrique)

É um domingo, 13:20, e eu estou ouvindo, pela primeira vez – e praticamente em primeira-mão –, o EP “Coisas belas e sujas”, do projeto Cinemerne, encabeçado (e quase todo tocado e produzido) pelo sergipano (da cidade de Lagarto) e multi-instrumentista Paulo Henrique, ex-Lacertae (que ainda está na ativa). Nele, também Léo Airplane (tecladista da Plástico Lunar) põe sua assinatura, tocando vários instrumentos, fazendo arranjos e coproduzindo. Os dois são os culpados pelo resultado final. Cinemerne é o nome que, na língua dos utopianos (leia A Utopia, de Thomas Moore), significa “festa inicial”, celebrada nos primeiros e últimos dias dos meses lunares no ano revolucionário-solar.
É um domingo de ressaca, depois de uma sexta de estradas cruzadas e um sábado alcoolizado, e um resfriado mal vindo.
É um domingo e eu penso que, para falar sobre este trabalho incrivelmente bom do Paulinho, como os amigos mais próximos o chamam, eu precisava estar com a cabeça no lugar, e corpo também. Mas caio em mim e, “não!”, penso, “é justamente o contrário!” Por isso, continuo. Mas, antes, tenho que falar do sábado, que foi quando o amigo Jesuíno André me presenteou com um exemplar do referido EP.
“Pata, o Paulinho é um artista maravilhoso; e depois de muito tempo sem gravar alguma coisa voltou àtiva com este trabalho. Dá uma sacada e diz o que você achou.” Ele dizia, enquanto a gente deixava a tarde passar pela orla de Cabo Branco, entre uma cerveja, um ensopado de camarão e umas doses generosas de cachaça Serra Limpa.
E eis aqui o que eu acho:
As 5 canções de “Coisas belas e sujas” – nome de uma delas e também de um filme do diretor britânico Stephen Frears, lançado em 2010 – soam monocromáticas, monocórdicas e, por incrível que pareça, não deixam “a peteca cair”, mas mantêm-se como um enorme discurso poético-gritado, psicodélico-pirado, às vezes raivoso, às vezes delicioso, como no começo da música que dá nome ao projeto: “Uma flor se espreguiça ao sol, / Uma formiga carrega um grão. / Uma pobre mulher se sente só. / Um doente novamente se sente são. / E esses dias são tão tristes.” Trata-se, para quem sabe ouvir, de uma cadência experimental que, no que é possível, foge aos modelos estabelecidos, como fórmula para... Ouça-o inteiro, Helena; ouça-o inteiro.
Quem conhece P.H., sabe que que ele também já esteve assim: como a flor, a formiga, a mulher solitária, e o doente que fica bom. “Paulinho esteve ausente muito tempo, Pata; meio perdido em [...], e ele diz que foi a música que o salvou, lhe mantendo são...” São palavras de Jesuíno, falando de um amigo a outro amigo, sem juízos e sem clichês impressionantes, e a música aí, no meio da gente, no meio das conversas. Sim! Um bom delírio, às vezes, pode nos salvar da piração absoluta! E elas são muitas, e manifestam-se de muitas maneiras. E é por isso que, observando músicas e letras, começo a perceber que, sim – e somente o autor poderá dizer o contrário –, há muito da história de vida deste artista incrível, desse cara incrivelmente talentoso, mostrando seu mundo, suas referências, sua pródiga imaginação que voa mundo afora (China, Rússia, Atlântida, Índia, Alexandria, etc...), seus gostos pelo surrealismo multicolorido de Van Gogh, pela tensão imagética de Stephen Frears, que parece plastificar e amarrar todas as demais referências, como se, a não ser pela imaginação, não fosse coisa boa sair lá fora, onde está, o tempo todo “chovendo querosene”, e onde há “um idiota cantando na chuva... [e] esse aí sou eu...”, e que, por isso, e para ele, “hoje, no Circo, [poderá ser] o fim do mundo”. Quase todas as letras têm esse tom hora melancólico, hora sombrio, descrevendo imagens cinzentas (como o céu enegrecido pelos corvos que, na capa, desabam sobre o dourado trigal das/nas cores de Van Gogh), como quando se diz de “uma alma que sente suja”, ou “esse vazio que tanto insiste, como a solidão na vida deu um monge”, e, não por fim, quando é mencionada “uma criança que nunca sorriu”...
Não, não; melhor não! Melhor voltar atrás, fantasiar outros campos, pensar que “hoje não estou demente / [pensar que] a luz brilha no quarto / Vermelho sol poente / [pensar que] a tristeza tem fim / [pensar que] o dia sorri pra mim”. Sim, apesar de tudo, e por ser uma via catártica, a música, mesmo a mais triste e dolorosa, pode expurgar medos e raivas, desencantos e frustrações. A arte é, sim – e a música é sua mais acabada manifestação –, a grande saída contra o trágico que impera no mundo. E P. H. sabe disso, e sabe bem; e faz coro com os poetas gregos, e com Schopenhauer, e com Nietzsche, e com tantos outros que souberam ver o céu encarvoado de corvos famintos e, acima deles, um sol solitário... e sua luz. A arte é um escape do trágico!
Hoje é domingo, e agora são 14:20, e esta é a terceira vez que coloco o EP para tocar enquanto escrevo sobre ele, e estou resfriado, e sem almoço... e a fome vem me dizer que é hora de comer.
Talvez eu pudesse, noutra hora, reescrever tudo o que disse aqui, de modo mais cuidadoso e criterioso. Seja como for, e até aqui, esta foi uma fiel tentativa de descrever a minha primeira impressão sobre o “Coisas belas...”, e ela foi boa, e eu não costumo ouvir algo tantas vezes seguidamente, e gostar do mesmo jeito, seguidamente. Enfim... é apenas uma crítica, e bem pessoal. Bom mesmo é que você, Helena, ouça e tenha as suas próprias impressões. Por hora, vou ali no Hiper da Lagoa comprar algo que sirva de almoço, antes que chegue “a tempestade [que] está perto”, e enquanto “o dia sorri pra mim”. Talvez, depois, como disse, eu mude tudo o que escrevi aqui; talvez não – que é o mais provável.
E lá me vou, assim, cantarolando com voz gutural e simulando uma roda de pogo com os meus outros Eus: “Uma jaula dentro da cabeça! Todos têm medo que escureça! / E gira. E gira o mundo. Nobre vagabundo. / Hoje no circo! O fim do mundo!...”

(P.M.)

Cinemerne, "Coisas belas e sujas": DOWNLOAD

Mais do projeto disponível em:
www.myspace.com/CINEMERNE
www.soundcloud.com/cinemerne

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Outras críticas sobre este EP:

Yellow Domain (entrevista com Paulo Henrique):
Pelas Bandas de Sergipe:
Spleen e Charutos:

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A DANÇA DOS COMUNS



Bandos coloridos de padres, gurus, freiras
monges, bruxas, coro & dançarinos rituais...
todos com suas túnicas pretas, brancas & cinzas
& outros com suas vestes largas esvoaçantes
dançam & rodopiam de mãos dadas
ouvindo respeitosamente a música do Tempo
& tudo é muito gratificante
& tudo é muito digno de riso
& de cerimônias descerimonizadas
alegres, festivas, lascivas & alucinantes
& tudo é singularmente ineficaz enquanto reza
enquanto oração & súplica & petição respeitosa
& todos os deuses estão quietos em seus cantos
& todos os deuses estão em seus céus sem espaço & tempo
& todos os deuses estão guardados em todos os livros santos
omnia opera que bendiz os seus santos & eternos nomes
& todos os deuses estão nas estantes & vivem aí
& em mais nenhum lugar, & em mais lugar nenhum
& por isso todos os devotos & fieis dançam
dançam, dançam, dançam & celebram
porque não há mais danação alguma
somente dança & celebração & o gozo risonho
& porque não há mais o inferno depois do inferno
somente este inverno & este frio & esta fogueira
é preciso dançar junto para manter o calor
& para que haja mais calor & mais alegria
& mais vinho eucarístico para o êxtase sagrado
& todos os deuses, havendo dançado, afinal
são celebrados pelos que dançam sem medo
pelos bacanas que estão empilhados no bacanal

& todos os religiosos de todo o Mundo dão as mãos
& escrevem um único tratado final de Teologia Comum
& escrevem uma única e derradeira Confissão Plural da Fé
& escrevem um único Credo Comum Desobrigante
que tem apenas um único e solene artigo:
"Da fé no Outro que também sou Eu"
o Eu que habita o Mundo: o lugar comum do único
longe da honorável eternidade metafísico-apofática
longe da eterna intangível & ininteligível realidade do Nada
aposto ao Ente eterno sem ser Ser, mesmo
mas cuja eficácia atemporal materializada nas orações
nas orações proferidas desde tempos imemoriais
foi o silêncio obsequioso do “não”:
não existo, não ouço
não vejo, não sinto
não atendo, não salvo
não julgo, não condeno...
Que tradição é traição, disso todos sabem
& por isso dançam, sem vergonha & sem medo
& por isso arremetem suas túnicas & roupas sagradas para o ar
& purificam-se com a nudez sagrada do corpo que é santo & imaculado
até que a Morte se apresente
até que a Morte se apresente & conduza
um a um
um a um a um a um aummm...
ao esquecimento cósmico final, o ZERO da moeda
único lugar destinado a todos que têm fé na Vida
amante lésbica da Morte
com quem vive lhe traindo
com seu eterno consentimento
& nem dizem mais que é traição
com Esperança... sim, a outra
Mas Esperança – & todas elas sabem
& todos os que dançam também – é a pior das amantes
& é justo abandoná-la tão logo encontrem Coragem...

& bandos coloridos de padres, gurus, freiras
monges, coro & dançarinos rituais...
todos com suas túnicas pretas, brancas e cinzas
& mais outros com suas vestes largas & coloridas
dançam & rodopiam de mãos dadas
ouvindo respeitosamente a música do Tempo...



quinta-feira, 2 de junho de 2011

Dia internacional das prostitutas

SOMOS o que SOMOS


Em 1975 na cidade de LYON 150 PROSTITUTAS francesas CUPARAM a IGREJA protestando contra a REPRESSÃO POLICIAL, MULTAS, PRISÕES e até ASSASSINATOS de colegas, que não eram investigados.
O movimento se ESPALHOU e IGREJAS de outras quatro cidades, inclusive PARIS,foram ocupadas.

Além disso, houve GREVE de SEXO comercial.
No DIA 11 de junho, a POLÍCIA invadiu as capelas e EXPULSOU as MULHERES aos SOCOS e PONTAPÉS.
Só que o MUNDO inteiro tinha acompanhado o PROTESTO. O resultado foi a CRIAÇÃO da ASSOCIAÇÃO DE PROSTITUTAS FRANCESAS. Com a REVOLTA, a LUTA pelo RESPEITO às MULHERES da VIDA ganhou FORÇA, multiplicando a ORGANIZAÇÃO em diversos países. É pra COMEMORAR.
Texto - BEIJO DA RUA, maio de 2002 COLUNA -NO PONTO
Autor - FLÁVIO LENZ

Em todo o BRASIL existem 35 ASSOCIAÇÕES mobilizadas em defender e criar um diálogo permanente com a sociedade sobre os direitos da mulher. MULHERES SÃO IGUAIS EM QUALQUER PROFISSÃO. Segue o princípio do respeito ao ser humano na sua divesidade social de pensamento, costume, raça, crença, religião e PROFISSÃO.

SAUDAÇÕES a todos e a todas: DIA 02 de junho - DATA HISTÓRICA em todo o PLANETA... Acontece um dos mais importantes eventos populares de RESISTÊNCIA e AÇÃO CULTURAL: O DIA INTERNACIONAL da PROSTITUTA.

Uma programação cultural, esportiva, holística, educacional e ambiental irá OCUPAR o ESPAÇO da rua da AREIA servindo como INSTRUMENTO de CONTRIBUIÇÃO, REFLEXÃO, ATITUDE e TRANSFORMAÇÃO em nossa SOCIEDADE. Uma realização da AGÊNCIA ENSAIO e da ASSOCIAÇÃO das PROSTITUTAS da PARAÍBA.


Quando? Dia 02 de junho (quinta-feira)

Que horas? A partir das 19h05min
Onde? Rua da Areia (Centro Histórico da cidade de João Pessoa)
LIVRE - Leve a sua família, seus amigos...
SEM JULGAMENTOS









Fonte: http://gigabrowgrafite.blogspot.com/2011/05/normal-0-21-false-false-false-pt-br-x.html


quarta-feira, 1 de junho de 2011

A DANÇA DOS DIVINOS




Os deuses supremos estão dançando...
o sagrado & terrível Śiva dança sobre os mundos
os mundos que acabou de destruir & libertar
dança freneticamente na presença de Lālita
a divina, encantadora & amorosa deusa Lālita
a magnânima Lālita, “aquela com quem se joga”
& eu vejo tudo da minha torre, com meu olho tântrico:
eu vejo a ṡākta dançando sobre o corpo imóvel de Śiva

Oh!, sim, crianças: os deuses também se divertem
Śiva & Pārvatī jogam seus dados no paraíso
& isso é um momento muito íntimo dos dois
sim: eles jogam seus dados & decidem tudo:
o destino de todos os habitantes dos mundos
& o destino dos mundos, de todos os mundos

Os deuses supremos dançam & se riem
& riem ainda mais que tantos se levem tão a sério
enquanto eles, ah!, enquanto eles rodopiam a valer
cantando paródias animadíssimas sobre māyā
sobre a grande ilusão que é o sentido de tudo, velado:
dos mundos, dos homens & dos deuses que lhes parem
como parem o bem, & o mal, & a sabedoria, & a ignorância
como visível nos livros sagrados que sistematizam a crença...

Ah!, crianças: os deuses supremos dançam & rodopiam
ignorando o que seja “transgressão” ou “lei”, “você” & “eu”...
por isso, avance todos os sinais; não há sinais
escale o edifício mais alto & voe; não há gravidade
mije na porta das igrejas; não há o sagrado material
& perdoe os deuses & os santos; eles não sabem o que fazem...