O homem natural
MaCandles ouviu o chamado da terra &, ah!, ele pirou
Era o homem civilizado querendo voltar às origens...
[uma risada enorme de enorme aqui, & mais outra
ha ha ha ha ha ha ha ha ha ha ha ha ha ha ha ha ha
... não há homem natural, não; não há! (Eu digo!)
O homem natural é justamente o antinatural
(que se recusa a ser aquilo que nasceu sendo)
de um jeito ou de outro
por este ou por aquele caminho
negando seu Eu mesmo como coisa ruim
desconhecendo o real valor do seu Eu Real
& a cara sorridente de Thomas Jefferson
& a etiqueta nos restaurantes granfinos
& as festas da gente chique do lugar
& as noites frias depois das chuvas
& os livros santos & os sagrados símbolos
& o sermão do Pe. Pedófilo todos os domingos...
... hipócrita fela de uma puta bemmm puta!
De onde nos veio essa moral que nos arvorizou?
& qual foi o dia que nossa cultura nos emparedou?
Quando foi que nos tornamos árvores & fósseis?
MaCandles talvez fosse um exemplo a ser imitado...
... mas, não; não é & nem poderia sê-lo
O homem natural não dominaria a natureza
animal sem a razão que submete, se submeteria
& não seria somente roupas que não usaria
mas também o fogo
& as comidas enlatadas
& a internet
& a TV digital
& o telefone
& os polegares
& os óculos de grau
& nenhum papel para um poema
& nem papel higiênico para limpar a bunda
& nem ouviria nenhum chamado da nenhuma selva
porque não saberia nada de nada de um Jack London
não amaria a Terra, & desconheceria o que fosse isso
sendo um com ela, uma parte dela & parte do todo
O homem natural não poderia nunca existir
até pelo fato de não saber que “existiria”
que é existente, & o que seja mesmo o “saber”...
vivendo a pulsão cega interior & sem saber dela
jogado por este ou por aquele caminho
em direção à Vontade de vida contra o não-ser
& à liberdade que, sonhada, desconheceria
obedecendo-a como um cego ao seu cão fiel
& como um rio à sua correnteza & ao seu curso
& como a nuvem aos ventos & às estações...
... O homem natural não saberia sobre o vento
mas o sentiria, & isso lhe seria bom ou ruim
mas o que significaria isso de “bom” ou “ruim”?
Ele não saberia, mesmo do “dizer”, o significado
que palavras ou significam algo ou, algo, são
& do mesmo jeito que não há os universais
não há (sim, não há!) o tal de homem natural
& é por isso – & não quero perdão por dizer –
que a maior de todas as piadas é ser hippie (é!)
negar o valor do capital & precisar dele (é!)
como aquele que, simbolizado pelo metal
compra mais metal para uma pulseira, & outro colar
ou um hamburger gorduroso lá na Lagoa
ou o burrinho da cachaça ruim & barata
de mil dores de cabeça & enjoo certo & certeiro
A maior de todas as piadas é ser hippie
& punk, & rocker, & mpbesta, & isso & aquilo
tudo é fantasia & adequação & acaso & luta
& quem é que liga para a verdade de tudo isso?
& todos estão com braços & pernas bem amarrados
& o homem das cordinhas rir dos bonecos
& eu lhe chamo para dançar, mas não sei dançar
& você me chama & eu digo, sim; você me conduz
conforme a propaganda & a insistência comercial
& tudo é um grande baile de máscaras no final
carnaval moderno... a antiga festa dos foliões
procissão de santo, roda de dança & celebração
O homem natural é tão antinatural quanto pode ser
& quanto mais se esforça para não sê-lo
tanto mais é tudo o que evita, & o seu contrário
& agora eu quero que as pessoas, (sim!)
cada uma delas, & ao menos uma vez na vida
olhem para si mesmas & assumam (Oh, sim!):
“Eu também sou uma grande de uma farsa”
& eu quero que as pessoas queiram isso, já!
tudo agora, & amanhã & depois de amanhã

