quinta-feira, 19 de maio de 2011

Olá! Esta é Marília, leonina, aos 24



Olá! Esta é Marilia, leonina, aos 24
& ela gosta de gin com tônica, oierrr...
& adora Bourbon com menta, oierrr...
& escreve contos que acabam mal, quando acabam
& tem medo de relâmpagos & de trovões
& as canções que ela ouve – uh!, credo! –
me dá vergonha até de dizer, & digo não
& ela gosta de filmes noir, stop making sense
& gosta de Funny Girl & Arnaldo Jabor
& faz mestrado em linguística, que “vai levando...”
& é professora desses projetos mi mi mi do MEC
& orienta (meu deus!, meu deus!) uns aí, ai ai...

Marilia agora está péssima, & chora de vez em quando
Ela vai até a janela & vê a chuva caindo na rua
& ela sente que as nuvens estão chorando
& tem vontade de chorar também
que uma coisa não sei o quê aperta o seu peito
& alguém está ouvindo uma música de Elis, lá longe
& ela volta para o seu quarto, à sua cama desarrumada
& eescreve um outro conto que deixará sem fim
& é quando sua mãe lhe chama, que vá à sala...
... a TV está muito alta, & sua mãe também, & feliz
(é uma chamada para o show deste sábado, dia 31
cujos ingressos devem ser comprados ainda hoje, dia 22)

Eu disse uma vez que tinha uma HQ para a Marilia
de uns alienígenas mutantes que invadiam a terra
vindos em uma nave que, perdida, fora resgatada
trazendo seu astronauta & os tais aliens mutantes
(É uma história loucassa do louco do Bill Plympton
com desenhos loucassos do louco do Bill Plympton)
Marilia nunca pegou a revista; não pegou não
& nunca mais eu a encontrei para entrega-la
& é melhor que seja assim como é, não sendo...
... pois somente a sua loucura lhe poderá manter sã
& qualquer visão que não seja uma visão fantástica
bem poderá ser uma rara, raríssima & nova loucura
– o mais falso, sim, o mais falso de todos os delírios –
... pois o real pode ser um grande de um grande saco
Mas é a realidade nos agarra assim, pela mão, & nos leva
& sonhamos para poder escapar daí, do medonho
& corremos pela rua, em meio aos carros buzinantes
& gritamos nas praças, & mijamos nos chafarizes
& colamos cartazes eróticos nos pontos de ônibus
nos pontos de ônibus & nos prédios públicos
nos prédios públicos & nas lojas das galerias
& ameaçamos as estátuas que se fazem de surdas
& dançamos dancinhas da moda mainstream
as paradas de sucesso da modinha MTV
boogie-woogie & bubblegum & blue beat
(somente para mostrar como são ridículas
& como o sucesso é só um conceito, sim
& como o sucesso é só um ponto de vista
& como Ponto de vista é um espetáculo teatral
– & uma maneira de avaliar a coisa toda –
& como os críticos são, tão... críticos...)

Quando Marilia sonha eu invado a sua mente
& o muzak é Chico & outros clichês delícias
& digo que ela está sonhando, & que vai acordar
& será uma grandessíssima de uma bosta, igual antes
& que isso é uma pena, é; mas já são, oh!, 06:30
& o som horrível do despertador é um cu; é!
& que, embora sonhar seja tão bom & tal & tal
ela deve parar de confundir isto com aquilo
(mas ela não devia me ouvir nunca; devia não...)
& quando Marilia acorda, briga comigo
diz que sou um chato fela da puta até dizer basta!
& que não a deixo em paz nem aí, em seu sonhar...

... & por falar nisso, sem insistir em ser mais chato
li não sei aonde que dreaming é a mesma coisa, sim
seja em inglês, seja em japonês... “sonhar”, “sonhar...”
& Paul Valéry diz uma coisa que todo mundo devia saber:
“Toute vue des choses qui n’est pas étrange est fausse...”
& estranha também é a não-coisa, a não coisa não-visível
& falsíssima & cheia de olhos & de narizes & de dentes
(& os manifestantes do Maio de 68 o sabem bem...)
& Marilia sabe que precisa dormir &... dreaming dream
mas o sono não vem, não; somente os pesadelos:
uma puta de uma ruga novinha que diz: Olá, nega!
& Marília diz, azeda que só: Ah, meu!, à merda, caralha!
Mas a porra do sono não vem messsmo; não vem não...
... dreaming... ruu... fuck you and the world all
O inglês de Marilia é decadente, somente para constar

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Este poema, quase biográfico, é dedicado à Marilia Dalva,
para que o seu dia seja melhor...

Um comentário:

Mônica de Andrade disse...

A gente tambem poderia dar um peteleco nela para o dia dela ficar melhor ;)
Brincadeira!
Adorei o seu poema!
Virei outras vezes :*